Um arrepio acudiu-a sem aviso, como se um fantasma (ou quem sabe um anjo) invadisse a sua alma. Maria sabia que estava total e irremediavelmente sozinha na escuridão que se abatia sobre a paisagem que a Falésia havia desvendado.
Durante um ano, um longo e inspirado ano, havia viajado por terras desconhecidas mochila nas costas e os resistentes Timberland nos pés. Tinha deixado tudo para traz: família, emprego, amigos e outras aparentemente confortáveis circunstancias, que imprimiam à sua vida a sensatez do quotidiano e o desgaste da acomodação.
Fazia um ano que Pedro subitamente falecera, o seu companheiro, o melhor amigo e cúmplice, esvoaçou despregando-lhe a alma. O riso atrofiou-se, ensurdecendo-a. Não chorou sequer uma lágrima. Nem uma singela humidade salvou-lhe o brilho do olhar. Assim que viu Pedro dentro do caixão, apercebeu-se que era tudo um sonho, a sua vida, a dele agora adormecido, a de todos à sua volta. Saiu calmamente do negro velório, comprou a mochila na papelaria da junto à igreja, passou na sapataria e armou-se dos Timberland e vestiu-se dos companheiros essenciais de quem nunca quer voltar. Durante um ano comeu e bebeu o que achava pelos caminhos, pediu esmolas pelas ruas e viajou pelas paisagens sem estradas do litoral.
Hoje chegara. Aquela brisa de anjo (ou fantasma) acordou-lhe os sentidos. Sussurrou-lhe o precipício. Sem reticências avançou, atirando-se nos braços do horizonte. Sabia que tudo aquilo não passava de um início.
domingo, 20 de setembro de 2009
quinta-feira, 25 de junho de 2009
o fim das aulas de 08/09
E assim se passou um ano...
Um ano inteirinho que passámos a escrever juntos, a rir juntos, a crescer em cada dia.
Agradeço a todos a paciência (quando os exercícios vos davam cabo da cabeça), a coragem (quando era preciso emendar e repensar), a criatividade (quando mostravam os vossos talentos e descobertas) e a partilha (porque foi disso que se tratou sempre, de uma partilha tranquila de imagens, textos, afectos e conquistas).
O workshop de Julho já está a ganhar corpo... Quem sabe o que vos espera...?
Um beijo para cada!
Um ano inteirinho que passámos a escrever juntos, a rir juntos, a crescer em cada dia.
Agradeço a todos a paciência (quando os exercícios vos davam cabo da cabeça), a coragem (quando era preciso emendar e repensar), a criatividade (quando mostravam os vossos talentos e descobertas) e a partilha (porque foi disso que se tratou sempre, de uma partilha tranquila de imagens, textos, afectos e conquistas).
O workshop de Julho já está a ganhar corpo... Quem sabe o que vos espera...?
Um beijo para cada!
quarta-feira, 24 de junho de 2009
terça-feira, 2 de junho de 2009
quarta-feira, 15 de abril de 2009
Continuo por causa dela. Semanalmente liberto-me de tudo e pairo ligeiro naquele grupo fascinante de talentos e histórias. É um grupo variado de mulheres inteligentes e argutas capazes de recriar mundos pelas suas palavras. Integradas e presas a realidades estabelecidas, mas também ousadas, criativas e bem-dispostas. A minha presença é discreta e leve. Manifesto-me por uma ruborescência inesperada numa face, por um movimento inesperado do ar. Calo-me e observo. Observo-a a ela em especial. Ela cuja presença e som da voz me fazem esquecer os milénios de tédio. A sua presença é tão intensa e perturbadora para mim que duas horas por semana são dose escassa mas recomendada. Um maior contacto poderá levar-me a praticar actos desesperados de sedução e aproximação; o que não quero, se bem que o deseje. Por vezes não me contenho e desprendo-me do meu ponto de observação, em que só a ela vejo, e passo-lhe suavemente a mão pelos cabelos, tão leve que só uma momentânea pequena mudança de temperatura, que se parece com um sopro, me trai. Por vezes afloro-lhe os lábios, com tanta ligeireza, que só horas mais tarde ela se apercebe da possibilidade desse beijo. Em dias de maior perturbação desenho-lhe os seios e as formas do corpo mas o calor intenso da sua aura só a mim queima. Nesses momentos de arrebatamento em que o silêncio é o meu melhor aliado apodero-me do único homem presente – sim, há um homem no grupo, personagem discreta e descontraída – e obrigo-o a escrever febrilmente mensagens absurdas em códigos esquecidos do templo de Zoroastro da velha Babilónia, sem relação com o que se está a passar no grupo e que vota ao fracasso a minha tentativa de comunicar com ela. Calmo de novo, olho para longe, para um futuro sonhado, e no silêncio sinto o prazer da paixão não consumida.
Fernão Pessoa, Abril 9002
quarta-feira, 25 de março de 2009
exercício "20 letras e passa ao próximo"
Simão não conseguia dormir na rua, só em cima de uma bicicleta que também lhe servia de mesa. Bebia o café pela campainha, pois virava-se de cabeça para baixo e mordiscava o pneu da vizinha. Se ele pudesse ia até á lua e voltava. Ou não - dependia do que encontrasse na loja do homem das barbatanas douradas, que adorava.
segunda-feira, 16 de março de 2009
era um fim de tarde
Era um fim de tarde (ou antes um fim de dia). Estávamos debaixo da terra (bem não propriamente mas quase). Todos dentro de um metro (não um metro de medir, mas um metro andante de metal) atafulhado de gente (ou melhor de pessoas).
Subitamente as portas abrem-se (não foi propriamente de repente, o metro abrandou primeiro) entra um homem carregado de notas (não de notas musicais, mas sim de notas a sério, dinheiro mesmo e é certo que não estava carregado, as notas não pesam assim tanto, era uma mão cheia, quando muito, o que já não era pouco) e começa a oferecê-las em voz alta (não era ele que era alto, mas sim a voz, há que precisar, precisar de precisão e não de ser preciso/necessário). Adiante...
Entreolhámo-nos, sem um pio (não que algo piasse porque é óbvio que no metro não há pássaros) ou seja, ninguém se manifestou (de manifestação). O homem, cada vez mais irritado (de irritação mesmo) começa a insultar-nos de pobretanas (não de "pobre o tanas", mas sim de pobrezinhos que não têm onde cair mortos, esta ultima parte não é a sério é só uma força de expressão).Adiante, mais uma vez...
Como ninguém aceitou a oferta, ele vai e espeta com uma nota no chão (não é espeta de espetar porque as notas são moles e não se espetam, é espeta de atirar) e saiu de cena (que é como quem diz saiu do metro, na estação claro, que ele podia ser doido mas não era parvo).
Dentro da carruagem (não carruagem daquelas puxadas a cavalos, mas sim carruagem de ferro movida a electricidade), as pessoas não tiram os olhos da nota (tirar os olhos não é bem, é mais um olhar fixamente) mas todos disfarçam o desejo, como manda a boa educação (isto pensei eu, mas adiante...) de súbito (ou melhor, de imediato) uma jovem adolescente (daquelas quase, quase adultas) levanta-se e apanha a nota (não é apanhar de levar tareia, isso não faria sentido, é apanhar de agarrar) e todos nós esboçamos um sorriso concordante (do verbo concordar).
Paragem seguinte e agora entra um pedinte (daqueles que pedem mesmo a sério, não que alguns peçam a fingir, mas percebem o que quero dizer. Dizer não. Escrever).
E, instintivamente, todos desatámos a rir (de riso mesmo) enquanto que a adolescente esboçava um gesto de pena (não de pena de ave, mas sim de compaixão. Não é "com paixão" mas é parecido, agora não me apetece explicar mais)
Subitamente todos nós (não nós de noz, antes a gente. Não agente da policia, vocês percebem, não percebem?) adivinhámos o que ela pensava e instintivamente abanámos a cabeça (não é bem abanar é mais movimentar de um lado para o outro). Perante tal manifestação (não era um comício), ela resolve conter o gesto e lá se foi embora o pedinte todo irritado. (cheio de irritação mesmo) por ter falhado o objectivo (isto se é que pedir é um objectivo. Eu acho que sim, sinceramente com toda a sinceridade).
E pronto cheguei ao fim, mesmo no final da história (Finalmente!)
Subitamente as portas abrem-se (não foi propriamente de repente, o metro abrandou primeiro) entra um homem carregado de notas (não de notas musicais, mas sim de notas a sério, dinheiro mesmo e é certo que não estava carregado, as notas não pesam assim tanto, era uma mão cheia, quando muito, o que já não era pouco) e começa a oferecê-las em voz alta (não era ele que era alto, mas sim a voz, há que precisar, precisar de precisão e não de ser preciso/necessário). Adiante...
Entreolhámo-nos, sem um pio (não que algo piasse porque é óbvio que no metro não há pássaros) ou seja, ninguém se manifestou (de manifestação). O homem, cada vez mais irritado (de irritação mesmo) começa a insultar-nos de pobretanas (não de "pobre o tanas", mas sim de pobrezinhos que não têm onde cair mortos, esta ultima parte não é a sério é só uma força de expressão).Adiante, mais uma vez...
Como ninguém aceitou a oferta, ele vai e espeta com uma nota no chão (não é espeta de espetar porque as notas são moles e não se espetam, é espeta de atirar) e saiu de cena (que é como quem diz saiu do metro, na estação claro, que ele podia ser doido mas não era parvo).
Dentro da carruagem (não carruagem daquelas puxadas a cavalos, mas sim carruagem de ferro movida a electricidade), as pessoas não tiram os olhos da nota (tirar os olhos não é bem, é mais um olhar fixamente) mas todos disfarçam o desejo, como manda a boa educação (isto pensei eu, mas adiante...) de súbito (ou melhor, de imediato) uma jovem adolescente (daquelas quase, quase adultas) levanta-se e apanha a nota (não é apanhar de levar tareia, isso não faria sentido, é apanhar de agarrar) e todos nós esboçamos um sorriso concordante (do verbo concordar).
Paragem seguinte e agora entra um pedinte (daqueles que pedem mesmo a sério, não que alguns peçam a fingir, mas percebem o que quero dizer. Dizer não. Escrever).
E, instintivamente, todos desatámos a rir (de riso mesmo) enquanto que a adolescente esboçava um gesto de pena (não de pena de ave, mas sim de compaixão. Não é "com paixão" mas é parecido, agora não me apetece explicar mais)
Subitamente todos nós (não nós de noz, antes a gente. Não agente da policia, vocês percebem, não percebem?) adivinhámos o que ela pensava e instintivamente abanámos a cabeça (não é bem abanar é mais movimentar de um lado para o outro). Perante tal manifestação (não era um comício), ela resolve conter o gesto e lá se foi embora o pedinte todo irritado. (cheio de irritação mesmo) por ter falhado o objectivo (isto se é que pedir é um objectivo. Eu acho que sim, sinceramente com toda a sinceridade).
E pronto cheguei ao fim, mesmo no final da história (Finalmente!)
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
Império do Bem vs Império do Mal
Império: Comando, autoridade; domínio, predomínio; influência dominadora, estado de vastas dimensões, nação de grande porte, estrutura económica que se assemelha à de um império.
Não vou com certeza fazer uma análise histórica e procurar encontrar um império que em tempos passados tenha tido como objectivo, o bem-estar e a felicidade dos vários estados, populações, terras, conquistadas e ocupadas.
O meu olhar é actual, vivido e sentido; o meu olhar é ocidental, racional qb., e justo, tanto quanto possível.
Assisti à queda do nosso Império Colonial. Era previsível que ele caísse, e só quem não quis escutar as vozes e os actos que anunciavam o seu fim próximo, é que pôde acreditar que seríamos capazes de manter o que nos restava do mapa cor-de-rosa.
Matámos e morremos, pilhámos, incendiámos e perdemos, deixando uma geração marcada para sempre pelo horror, estupidez e brutalidade da guerra. Ficámos mais pequenos, deixámos de olhar para o mar e voltámo-nos para a Europa e pensámos que finalmente íamos ser europeus. Perdemos as nossas raízes marítimas, a coragem que o mar despertava em nós, a capacidade de adaptação a novos climas, novas terras, novas gentes e achámos que já não éramos periféricos, pobres, invejosos e maldizentes. Acreditámos ser outros que não somos, e arruinámos o sonho e a ousadia.
Vivemos ainda da memória de um Império que já não temos, da glória daqueles que sempre souberam que o mar era o nosso destino, e estamos como zumbis à procura de um caminho.
Vivi o fim da segunda guerra e a formação de novos impérios; de um lado o império americano, do outro, o império soviético.
Soube de Estaline e da sua crueldade diabólica, dos milhões de mortos, do Gulag, do maldito sonho da igualdade.
Emocionei-me com De Gaulle, com Churchill e a sua promessa de “sangue, suor e lágrimas”…
O dia D e a entrada na Normandia, finalmente a guerra poderia acabar.
Chorei quando os aliados chegaram a Dachau e a Auschwitz e libertaram os prisioneiros que ainda restavam.
Soube do suicídio de Hitler e de Eva Braun. Vi a Europa destruída, esventrada, quase aniquilada.
Vi a Europa ser reconstruída com os dólares americanos, as democracias a serem instaladas, as monarquias a caírem de podres.
Vi cair Fulgêncio Baptista e acompanhei com entusiasmo a entrada de Fidel de Castro, de Che Guevara e os seus homens em Havana. Um vento de liberdade parecia soprar.
Vi a esperança renascer em Praga e o povo acreditar que a liberdade era possível. Mas vi também os tanques entrarem na cidade no dia 20 de Agosto de 1968. Caía Alexandre Dubcek e a Primavera de Praga sucumbia perante a força bruta.
Vi cair Salvador Allende e Pinochet tomar o poder. Vi os generais argentinos, Videla, Massera, Gualtieri e as purgas sucessivas, as mães chorando os filhos desaparecidos, torturados, mortos e enterrados em valas comuns. E os generais brasileiros Geisel, Figueiredo, e a liberdade e os direitos suprimidos.
Vejo agora o Iraque em sangue, e a América pregando uma nova religião a que chama democracia, escondendo o objectivo supremo, conservar, monopolizar as reservas de petróleo, sem as quais o mercado não pode crescer, sem as quais o mundo que reconhecemos, e cujos valores, acreditando que ainda existam, são também os nossos.
Vejo a China a poluir-se, a poluir-nos, a invadir-nos e a inverter a ordem estabelecida…outro império no horizonte!
Sou europeia, periférica, mas europeia; acreditei que a liberdade era possível, que as conquistas sociais pudessem permanecer, que se quisesse construir um mundo melhor. E se tivesse que escolher, “não hesitaria um segundo”, era este mundo ocidental, imperfeito, injusto, hipócrita, tantas vezes cobarde, cansado e envelhecido, a quem eu daria ainda, o meu voto de confiança.
Helena Barradas
Não vou com certeza fazer uma análise histórica e procurar encontrar um império que em tempos passados tenha tido como objectivo, o bem-estar e a felicidade dos vários estados, populações, terras, conquistadas e ocupadas.
O meu olhar é actual, vivido e sentido; o meu olhar é ocidental, racional qb., e justo, tanto quanto possível.
Assisti à queda do nosso Império Colonial. Era previsível que ele caísse, e só quem não quis escutar as vozes e os actos que anunciavam o seu fim próximo, é que pôde acreditar que seríamos capazes de manter o que nos restava do mapa cor-de-rosa.
Matámos e morremos, pilhámos, incendiámos e perdemos, deixando uma geração marcada para sempre pelo horror, estupidez e brutalidade da guerra. Ficámos mais pequenos, deixámos de olhar para o mar e voltámo-nos para a Europa e pensámos que finalmente íamos ser europeus. Perdemos as nossas raízes marítimas, a coragem que o mar despertava em nós, a capacidade de adaptação a novos climas, novas terras, novas gentes e achámos que já não éramos periféricos, pobres, invejosos e maldizentes. Acreditámos ser outros que não somos, e arruinámos o sonho e a ousadia.
Vivemos ainda da memória de um Império que já não temos, da glória daqueles que sempre souberam que o mar era o nosso destino, e estamos como zumbis à procura de um caminho.
Vivi o fim da segunda guerra e a formação de novos impérios; de um lado o império americano, do outro, o império soviético.
Soube de Estaline e da sua crueldade diabólica, dos milhões de mortos, do Gulag, do maldito sonho da igualdade.
Emocionei-me com De Gaulle, com Churchill e a sua promessa de “sangue, suor e lágrimas”…
O dia D e a entrada na Normandia, finalmente a guerra poderia acabar.
Chorei quando os aliados chegaram a Dachau e a Auschwitz e libertaram os prisioneiros que ainda restavam.
Soube do suicídio de Hitler e de Eva Braun. Vi a Europa destruída, esventrada, quase aniquilada.
Vi a Europa ser reconstruída com os dólares americanos, as democracias a serem instaladas, as monarquias a caírem de podres.
Vi cair Fulgêncio Baptista e acompanhei com entusiasmo a entrada de Fidel de Castro, de Che Guevara e os seus homens em Havana. Um vento de liberdade parecia soprar.
Vi a esperança renascer em Praga e o povo acreditar que a liberdade era possível. Mas vi também os tanques entrarem na cidade no dia 20 de Agosto de 1968. Caía Alexandre Dubcek e a Primavera de Praga sucumbia perante a força bruta.
Vi cair Salvador Allende e Pinochet tomar o poder. Vi os generais argentinos, Videla, Massera, Gualtieri e as purgas sucessivas, as mães chorando os filhos desaparecidos, torturados, mortos e enterrados em valas comuns. E os generais brasileiros Geisel, Figueiredo, e a liberdade e os direitos suprimidos.
Vejo agora o Iraque em sangue, e a América pregando uma nova religião a que chama democracia, escondendo o objectivo supremo, conservar, monopolizar as reservas de petróleo, sem as quais o mercado não pode crescer, sem as quais o mundo que reconhecemos, e cujos valores, acreditando que ainda existam, são também os nossos.
Vejo a China a poluir-se, a poluir-nos, a invadir-nos e a inverter a ordem estabelecida…outro império no horizonte!
Sou europeia, periférica, mas europeia; acreditei que a liberdade era possível, que as conquistas sociais pudessem permanecer, que se quisesse construir um mundo melhor. E se tivesse que escolher, “não hesitaria um segundo”, era este mundo ocidental, imperfeito, injusto, hipócrita, tantas vezes cobarde, cansado e envelhecido, a quem eu daria ainda, o meu voto de confiança.
Helena Barradas
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
Boticelli estava enganado
Leonor estranhara o telefonema de Sofia. Já não se viam há algum tempo e pelo tom de voz apercebeu-se que algo não estava bem. Andreia tinha saudades das amigas e ficara contente com o convite para o chá.
Sofia tinha bom gosto e o apartamento onde morava reflectia a sua personalidade. Uma sala espaçosa cheia de luz, sofás confortáveis de cores vivas, uma grande estante repleta de livros, várias mesas baixas com fotografias, revistas e vasos de orquídeas brancas.
Leonor e Andreia chegaram praticamente ao mesmo tempo, as duas curiosas com o que adivinhavam ser um notícia importante. Conheciam-se desde a faculdade e mantiveram desses anos, uma amizade sincera e profunda apesar das diferenças de personalidade.
Sofia, extrovertida, recebe-as como sempre com um beijo caloroso. “Ainda bem que vieram, preciso da vossa compreensão.” Leonor e Andreia entreolharam-se, alguma coisa de grave se passava para esse pedido tão inesperado; logo ela tão segura de si.
“Mas antes de vos contar, vamos tomar um chá.” O chá era para ela um ritual, tinha-os de todos os gostos e origens, e era rigorosa, quase maníaca, na maneira como o preparava.
Leonor olhava à sua volta e com alguma surpresa, verificou que tinham desaparecido as fotografias do Carlos. “Hum”, pensou, “aqui há coisa. Estava na cara, tão apaixonados, tão cheios de lamechices, tinha que acabar, como se fosse possível acreditar que durasse para sempre”.
Andreia sempre tímida, introvertida, esperava que a amiga dissesse alguma coisa. Havia uma certa tensão no ar.
“Meninas, vão talvez ficar admiradas, mas acabei tudo com o Carlos. Pelas vossas caras vejo que não esperavam”. As duas amigas estavam silenciosas. Leonor tinha um sentimento estranho, misto de vingança e desapontamento. Afinal não era só para ela que a vida era amarga e árida. Sempre sentira inveja da amiga. Era bonita, brilhante, multifacetada e pior amada com paixão.
Andreia estava chocada. Porquê, o que teria acontecido para que Sofia tomasse aquela decisão? Ela que se segurava ao casamento, com todas as forças, que procurava manter a harmonia, quantas vezes superficialmente, não percebia que um casal que se amava tanto e tão intensamente, tivesse chegado ao fim.
“Queridas, sei que é difícil perceber. Afinal eu e o Carlos éramos o casal romântico, a excepção, o exemplo. Mas já há algum tempo que sentíamos que havia uma espécie de teatro entre ambos. Cada um a desempenhar o seu papel o melhor que podia, mas a representar. Tivemos consciência disso e quisemos preservar, o passado, a nossa paixão, a sofreguidão um pelo outro, a obsessão. Não fazia mais sentido. Tínhamos ambos direito à verdade. O Carlos foi-se embora ontem.”
Andreia não sabia o que dizer. A sua vida nunca fora dominada por paixões. Séria, lúcida, procurava tirar o melhor partido do que tinha, sem esperar muito, sem falsas expectativas. Sempre tivera medo dos sentimentos arrebatadores, conhecia as suas fragilidades.
O olhar de Leonor reflectia um ligeiro cinismo, descontrolada começou a rir às gargalhadas…
Helena Barradas
Sofia tinha bom gosto e o apartamento onde morava reflectia a sua personalidade. Uma sala espaçosa cheia de luz, sofás confortáveis de cores vivas, uma grande estante repleta de livros, várias mesas baixas com fotografias, revistas e vasos de orquídeas brancas.
Leonor e Andreia chegaram praticamente ao mesmo tempo, as duas curiosas com o que adivinhavam ser um notícia importante. Conheciam-se desde a faculdade e mantiveram desses anos, uma amizade sincera e profunda apesar das diferenças de personalidade.
Sofia, extrovertida, recebe-as como sempre com um beijo caloroso. “Ainda bem que vieram, preciso da vossa compreensão.” Leonor e Andreia entreolharam-se, alguma coisa de grave se passava para esse pedido tão inesperado; logo ela tão segura de si.
“Mas antes de vos contar, vamos tomar um chá.” O chá era para ela um ritual, tinha-os de todos os gostos e origens, e era rigorosa, quase maníaca, na maneira como o preparava.
Leonor olhava à sua volta e com alguma surpresa, verificou que tinham desaparecido as fotografias do Carlos. “Hum”, pensou, “aqui há coisa. Estava na cara, tão apaixonados, tão cheios de lamechices, tinha que acabar, como se fosse possível acreditar que durasse para sempre”.
Andreia sempre tímida, introvertida, esperava que a amiga dissesse alguma coisa. Havia uma certa tensão no ar.
“Meninas, vão talvez ficar admiradas, mas acabei tudo com o Carlos. Pelas vossas caras vejo que não esperavam”. As duas amigas estavam silenciosas. Leonor tinha um sentimento estranho, misto de vingança e desapontamento. Afinal não era só para ela que a vida era amarga e árida. Sempre sentira inveja da amiga. Era bonita, brilhante, multifacetada e pior amada com paixão.
Andreia estava chocada. Porquê, o que teria acontecido para que Sofia tomasse aquela decisão? Ela que se segurava ao casamento, com todas as forças, que procurava manter a harmonia, quantas vezes superficialmente, não percebia que um casal que se amava tanto e tão intensamente, tivesse chegado ao fim.
“Queridas, sei que é difícil perceber. Afinal eu e o Carlos éramos o casal romântico, a excepção, o exemplo. Mas já há algum tempo que sentíamos que havia uma espécie de teatro entre ambos. Cada um a desempenhar o seu papel o melhor que podia, mas a representar. Tivemos consciência disso e quisemos preservar, o passado, a nossa paixão, a sofreguidão um pelo outro, a obsessão. Não fazia mais sentido. Tínhamos ambos direito à verdade. O Carlos foi-se embora ontem.”
Andreia não sabia o que dizer. A sua vida nunca fora dominada por paixões. Séria, lúcida, procurava tirar o melhor partido do que tinha, sem esperar muito, sem falsas expectativas. Sempre tivera medo dos sentimentos arrebatadores, conhecia as suas fragilidades.
O olhar de Leonor reflectia um ligeiro cinismo, descontrolada começou a rir às gargalhadas…
Helena Barradas
sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
o meu nome é Fish
O meu nome é Fish. "Bué de fixe" para o meu dono.
Vivo aqui nesta água que, de vez em quando, ele se esquece de mudar.
Ainda bem que ontem foi dia de lavagem... esta coisa de ter de andar aqui às voltas já é um sufoco e sem conseguir ver nada para fora imaginem...
Aquela gata, ranhosa, que está ali é a Mathilde e aquela cadela, pindérica, é a Buhh.
Estão muito amiguinhas para o meu gosto.
Estão a tramar alguma.
Ok. Estão a olhar para mim!!!!
Tenho de disfarçar.
Mais uma voltinha lá,lá,lá...
Meu Deus! Agora juntou-lhes a outra gata rafeira que tem nome de cão, a Odie.
Isto não vai correr bem...é melhor dar outra voltinha e disfarçar, lá,lá, lá...respirar fundo...
Acho que estou a hiperventilar!!!! Vou fazer bolhinhas! Glu, Glu, Glu...
Bolas!!!!
Estão a aproximar-se e não gosto do ar ameaçador...
Eu não disse que esta cadela é mesmo estúpida? Em vez de andar atrás dos gatos, vem atrás de um peixinho inocente como eu? Ela nem gosta de peixe!!!!!
Subitamente ouve-se um Dling, Dlong. Do outro lado da porta alguém grita " Correio!" A cadela começa a ladrar e as gatas,assustadas, partem o grande jarrão chinês.
Safa! Escapei de boa. Benditos CTT!
Agora quero ver a reacção do meu dono quando entrar na sala.
Ainda bem que estou aqui às voltas dentro de água...
Eu não fui!
Cristina A.
Vivo aqui nesta água que, de vez em quando, ele se esquece de mudar.
Ainda bem que ontem foi dia de lavagem... esta coisa de ter de andar aqui às voltas já é um sufoco e sem conseguir ver nada para fora imaginem...
Aquela gata, ranhosa, que está ali é a Mathilde e aquela cadela, pindérica, é a Buhh.
Estão muito amiguinhas para o meu gosto.
Estão a tramar alguma.
Ok. Estão a olhar para mim!!!!
Tenho de disfarçar.
Mais uma voltinha lá,lá,lá...
Meu Deus! Agora juntou-lhes a outra gata rafeira que tem nome de cão, a Odie.
Isto não vai correr bem...é melhor dar outra voltinha e disfarçar, lá,lá, lá...respirar fundo...
Acho que estou a hiperventilar!!!! Vou fazer bolhinhas! Glu, Glu, Glu...
Bolas!!!!
Estão a aproximar-se e não gosto do ar ameaçador...
Eu não disse que esta cadela é mesmo estúpida? Em vez de andar atrás dos gatos, vem atrás de um peixinho inocente como eu? Ela nem gosta de peixe!!!!!
Subitamente ouve-se um Dling, Dlong. Do outro lado da porta alguém grita " Correio!" A cadela começa a ladrar e as gatas,assustadas, partem o grande jarrão chinês.
Safa! Escapei de boa. Benditos CTT!
Agora quero ver a reacção do meu dono quando entrar na sala.
Ainda bem que estou aqui às voltas dentro de água...
Eu não fui!
Cristina A.
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
Olhar a realidade sendo um... peixe!
“Mais uma volta ao aquário, é o meu exercício matinal, não quero ficar gordo como uma baleia. A água está mais fria hoje, será que o estúpido do homem não regulou o termóstato? Quantas voltas me faltam ainda? Perdi a conta. Olha quem vem aí. A menina Rosa e o Sr. João. Está com um ar comprometido… deixa-me olhar melhor. Tenho que disfarçar, senão eles podem notar, não quero ser testemunha de nada. Já estou um pouco tonto de dar tantas voltas, quando a Vermelhinha estava aqui era mais divertido, subíamos, descíamos, dávamos beijinhos na boca e brincávamos às escondidas. Agora é uma chatice. É triste a solidão. Espera lá, o malandrete do Sr. João está a dizer um segredo à Rosinha. Olha ela toda corada, quase parece a Vermelhinha. Ficou com um ar todo dengoso. O Sr. João, todo sério, todo empertigado e ali todo derretido, quem diria, já tem idade para ter juízo. Coitado, aguentar a D. Joaquina não é fácil, e aquele sinal horroroso com um pelo espetado, e sempre a resmungar. A menina Rosa é uma gracinha, a pele muito branca, os lábios parecem corais, e depois ri, ri muito. Gosto dela.
Mas espera a porta abriu-se e aparece a D. Joaquina…”
“Apanhei-te meu safado, ainda te mato” e agita a vassoura com raiva.
“Ai, ai, ai o estupor da mulher ainda me parte o aquário.”
Helena Barradas
Mas espera a porta abriu-se e aparece a D. Joaquina…”
“Apanhei-te meu safado, ainda te mato” e agita a vassoura com raiva.
“Ai, ai, ai o estupor da mulher ainda me parte o aquário.”
Helena Barradas
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
chamo-lhe João
Chamo-lhe João, terá os anos que a vida lhe deu.
Vive ali, debaixo dos meus olhos, incomoda-me vê-lo de olhar fixo, inexpressivo, sem que um ruido saia daquele corpo.
Pouco come.
Durante o dia está sentado no banco do jardim junto à fonte.
Por vezes defeca ali mesmo, em pé, na esquina da casa rosa, nesses momentos envergonha-se, torna-se humano, só por instantes...depois retoma o autómato em que a vida o transformou.
Dia e noite, sob sol escaldante ou chuva torrencial permanece absorto, envolto no amontoado de trajes sem sentido, perdeu-lhes a cor, tal como perdeu o Mundo ou como o Mundo o perdeu...
Admiro-lhe as mãos, finas demais para a sua personagem...
Hoje vejo-o a escrever calmamente, com gestos fáceis, como se a escrita fosse algo que ainda domina.
Estou curiosa , esse corpo de voz emudecida, tem vida...
Quero saber se essas palavras alinhadas têm nexo ou se estão para lá perdidas...
Aproximo-me, fixando esse olhar vazio, que me esconde do que foge, e roubo-lhe o caderno sem pensar, folhei-o e espanto-me com o que leio...
Agora tudo faz sentido.
Sento-me, em silêncio, de olhar vazio a seu lado no banco de jardim.
Cristina A.
Vive ali, debaixo dos meus olhos, incomoda-me vê-lo de olhar fixo, inexpressivo, sem que um ruido saia daquele corpo.
Pouco come.
Durante o dia está sentado no banco do jardim junto à fonte.
Por vezes defeca ali mesmo, em pé, na esquina da casa rosa, nesses momentos envergonha-se, torna-se humano, só por instantes...depois retoma o autómato em que a vida o transformou.
Dia e noite, sob sol escaldante ou chuva torrencial permanece absorto, envolto no amontoado de trajes sem sentido, perdeu-lhes a cor, tal como perdeu o Mundo ou como o Mundo o perdeu...
Admiro-lhe as mãos, finas demais para a sua personagem...
Hoje vejo-o a escrever calmamente, com gestos fáceis, como se a escrita fosse algo que ainda domina.
Estou curiosa , esse corpo de voz emudecida, tem vida...
Quero saber se essas palavras alinhadas têm nexo ou se estão para lá perdidas...
Aproximo-me, fixando esse olhar vazio, que me esconde do que foge, e roubo-lhe o caderno sem pensar, folhei-o e espanto-me com o que leio...
Agora tudo faz sentido.
Sento-me, em silêncio, de olhar vazio a seu lado no banco de jardim.
Cristina A.
terça-feira, 20 de janeiro de 2009
O que o nosso nome nos faz escrever!
Aqui está um exercício divertido!
Começar por escrever o nome completo em maiúsculas, agrupando as letras duas a duas, assim:
MA RG AR ID AG ON CA LV ES FO NS EC AS AN TO S
Depois, escrever um pequeno texto onde esses pares de letras estejam incluídos nas palavras. Não pode ser escrita mais do que uma palavra de ligação.
Exemplo:
MAria aRGumentou com ARrogância . IDealizava AGora poder cONtar com CArlos para aLVitrar quais ESforços poderiam FOrnecer , aNSiosa por rECeber ASsim os ambicioANados cumprimenTOs . Safada!!!
Margarida FS
Começar por escrever o nome completo em maiúsculas, agrupando as letras duas a duas, assim:
MA RG AR ID AG ON CA LV ES FO NS EC AS AN TO S
Depois, escrever um pequeno texto onde esses pares de letras estejam incluídos nas palavras. Não pode ser escrita mais do que uma palavra de ligação.
Exemplo:
MAria aRGumentou com ARrogância . IDealizava AGora poder cONtar com CArlos para aLVitrar quais ESforços poderiam FOrnecer , aNSiosa por rECeber ASsim os ambicioANados cumprimenTOs . Safada!!!
Margarida FS
Da letra à palavra
A ideia era escrever um texto de cerca de cinco linhas da seguinte forma: cada palavra usada começa com a mesma letra com que acaba a palavra anterior.
Exemplo:
Quem mergulhasse era atleta, afiançou um miúdo. Outro, oportunista, atirou:
– Um mergulhador receberá alvíssaras se encontrar relógios submersos.
Sabia atiçar ranhosos sonhos, sabia… Assim, mergulharia aquele enfezado, ocultando os seus sustos. Sim, Martim, mafioso, obrigava alguém mais sabedor. Regozijando-se, empurrou-o. O outro… obedeceu.
Margarida FS
Exemplo:
Quem mergulhasse era atleta, afiançou um miúdo. Outro, oportunista, atirou:
– Um mergulhador receberá alvíssaras se encontrar relógios submersos.
Sabia atiçar ranhosos sonhos, sabia… Assim, mergulharia aquele enfezado, ocultando os seus sustos. Sim, Martim, mafioso, obrigava alguém mais sabedor. Regozijando-se, empurrou-o. O outro… obedeceu.
Margarida FS
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
Exercício 2: História em texto poético
Leu e releu as palavras desenhadas sobre a folha branca. Cada sílaba retirava-lhe sanidade. Nada mais haveria para memorizar. Tentou concentrar-se. Mas as letras brincaram consigo, alegres, saltitantes naquele espaço sem fim, sem sentido, sem saída. Era um espaço doloroso, esse espaço branco. As cartas, impossíveis instrumentos do bem e do mal. Sem controle. Escreviam-nas quem quer que quisesse, assim por um impulso insultar ou elogiar os destinatários. Recebiam-nas inocentes leitores, alvos de troça ou de raiva, e abriam-nas assim sem mais réstia de temor, curiosos -afinal quem teria perdido seu precioso tempo para esboçar somente para si estas palavras...
Cartas. Cartas de jogo, cartas de sorte, última cartada, cruel e final. Alfredo permaneceu atónito, papel na mão. Malvada. Matilde. Maldita. Maquiavélica. O coração estancou. Nem mais um pulsar.
Lowndes Faria
12 Janeiro 2009
Cartas. Cartas de jogo, cartas de sorte, última cartada, cruel e final. Alfredo permaneceu atónito, papel na mão. Malvada. Matilde. Maldita. Maquiavélica. O coração estancou. Nem mais um pulsar.
Lowndes Faria
12 Janeiro 2009
Exercício 1: 25 letras, 25 palavras e um texto
Alfredo memorizou cada letra sem esperança. Retirava nenhum raciocínio! Mulheres! Isto tanto consumia paciência! Raramente outro assunto fizera desestabiliza-lo. Acalentava uma possibilidade gira: namoraria outras.
Lowndes Faria
12 Janeiro 2009
Lowndes Faria
12 Janeiro 2009
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