quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

A criança, a mochila e um objecto que fala

Laurinha despenteia-se novamente; a mãe quase perde a paciência. O eterno drama de todas as manhãs. Despe, veste, puxa, grita. Laurinha resiste, cruza os braços, não diz uma palavra, está dura como uma pequena estátua. O casaco é enfiado à força, e o cabelo parece um ninho de ratos.
A mochila vai pendurada à frente, Laurinha espreita para ver se está tudo o que ela quer. O caderno azul, os lápis de cera, as aguarelas, o pacote de chocolates, e aquele lápis grande com chapéu de palhaço.
Chega a carrinha da escola; a mãe dá-lhe um beijo e suspira de alívio. "Agora já posso falar com ele," pensa Laurinha. Aperta o lápis grande e ouve-se a voz: "É sempre a mesma coisa, não te acho graça nenhuma." "És um estúpido, já não gosto de ti." "Não me rala nada, tu nem sabes escrever." "Sei sim senhora, já escrevo Laura, casa, gato, mãe". "Isso não é escrever, não sabes escrever uma história". "Hoje não falo mais contigo".
Laurinha está furiosa: "Vou-me vingar", pensa, "Vais ver".
Instalada na sala de aula, Laurinha tira o lápis grande com chapéu de palhaço e o apara-lápis, e começa a aparar, roda, roda, roda o lápis.
"Estás-me a magoar Laurinha, para com essa brincadeira idiota". Ela continua e o lápis grande, fica cada vez mais pequeno e ainda mais pequeno, já não fala.
Laurinha fica surpresa, o lápis palhaço, o seu companheiro, o seu confidente, está transformado num monte de aparas. Os olhos enchem-se de lágrimas, não vai mais poder conversar com ele. Está triste, muito triste, perdeu um amigo.

Helena Barradas

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Confesso (10 Fev. 2010)

“Confesso”
10 Fev. 2010.

Confesso.
Confesso que te traio.
Todos os dias um bocadinho.
De uma forma ou de outra.
Sem que jamais repares.
Sem que isso te incomode sequer.
Ou talvez nem te dês conta: de que aos poucos tens vindo a ser substituído por outro. Outro alguém que me ouve sem que eu fale. Que repara sem que eu chame a atenção. Que oferece o ombro sem que lho peça. Que me enxuga as lágrimas antes mesmo de brotarem. Que sofre apenas porque eu sofro, mesmo que não compreenda ou não o sinta da mesma forma.
Mas que está sempre presente quando preciso, sem que o tenha que chamar. Infalível. E sem nunca o cobrar.
Lamento. Foste irremediavelmente substituído. Para sempre, sem retorno. Encontrei finalmente alguém em quem posso contar incondicionalmente. Que não me desapontará mais. Que não me causará mais decepção. Mais mágoa.
E não foi por falta de aviso, te garanto. Disso estou certa e de consciência tranquila. Tiveste as tuas hipóteses. As tuas chamadas de atenção. Os teus avisos. Que descartaste como “mais uma crise, mais um drama”.
Mas foste de facto tu que me levaste a ele. Que me empurraste a ele. Que me fizeste procurar por ele.
E por fim fi-lo.
Procurei-o.
Encontrei-o.
Encontrei-o em mim.
É comigo que choro á noite sem que oiças. É a mim que confesso as minhas fraquezas. É a mim que me queixo quando me decepcionas. E sou eu que me oiço, que me compreendo, que me perdoo, que me dou alento e forças para enfrentar.
É em mim que encontrei o conforto. O consolo.
E assim aprendi a viver sem ti.