“MUDANÇA”
Marta Coruche
Novembro 2010
Ao aproximarmo-nos do final de mais um ano, somos novamente confrontados com aquele cliché quase que obrigatório de fazer o balanço da nossa vida: o que se passou nos 12 meses que já lá vão, e o que esperamos (ao devorar as 12 passas à meia-noite do dia 31 de Dezembro) que venha a acontecer nos próximos 12 que ainda estão para vir.
No meu caso, confesso que se porventura alguma vidente me tivesse revelado o que as estrelas tinham reservado para mim, apesar de céptica eu teria certamente investido nalguma macumba que desfizesse o “mau-olhado”. É que foram vários meses de muita mudança, muita emoção, alguns sustos e uma generosa dose de tristezas.
Muito sucintamente (e até porque não gosto de me martirizar com as tristezas, nem muito menos entediar os demais): assisti à convalescença da minha querida avó que acabou por falecer, seguida do meu avô que a partir desse dia iniciou uma dolorosa caminhada até ao reencontro com a sua “namorada” de há mais de 60 anos. Eram-me muito queridos e faziam mesmo parte da minha vida e do meu dia-a-dia.
Tenho muitas saudades dos nossos pequenos-almoços, dos lanches com os miúdos e dos telefonemas a meio da manhã a avisar que “fiz-te ervilhas com ovos escalfados como tu gostas, anda cá almoçar!” Aqueles miminhos de avó...!
E que falta faz a boa disposição do meu avô e os conselhos sensatos que tinha sempre para oferecer: muito me ajudou a encontrar forças durante o meu longo processo de despedimento que, como não podia deixar de ser (!!) veio calhar nesta mesma altura; entre visitas ao hospital, enterro, cremação e várias missas, ainda se arranjou tempo para alguns serões com advogados.
E tudo isto acompanhado da minha 3ª gravidez, com as hormonas á flor da pele, privando-me de sensatez e calma, e conferindo-me uma sensibilidade “anormal”! (Sim, agora ao fim do 3º filho confesso que as gravidezes me transformam um bocado!).
E, quando por fim achei que a tempestade passara, tive ainda que hospitalizar o meu filho mais velho de 4 anos. Temi o pior (mais uma vez, as hormonas da gravidez não falharam!!): já o imaginava em quimioterapias, de cabeça rapada e tez cinzenta, e novamente uma série de tempo passado em quartos de hospital sombrios, com aquele cheiro inebriante.
E o raio das hormonas sempre a dar-lhe: chorava pelos cantos; cada agulha que lhe espetavam perfurava-me o coração; cada ‘maldade’ que lhe faziam era uma tareia para a minha alma. Mas lá arranjei forças para conseguir fingir que ‘está tudo bem - não há razão para pieguices!’ e sobretudo para NÃO chorar na frente dele. (Quem diria que ser mãe era tão difícil?!). Mas felizmente acabou por não ser nada de mais (mas o que sofri á conta do susto, ninguém me tira!)
E finalmente em Agosto: a BONANÇA, trazida pela mão da minha querida filha Maria da Assunção (nome da minha avó paterna), para pôr fim a esta maré de... “azares”(?). A coitada já vem calojada com todas estas emoções que viveu enquanto esteve cá dentro. Mas saiu perfeitinha, que é o que interessa (ou quase: tem um angioma a crescer-lhe dentro do nariz que começa a assemelhar-se ao da Miss Piggy!! Mas é linda, claro que é! Aos olhos da mãe podia até faltar-lhe um olho que seria linda na mesma!! A minha miúda, finalmente, para ser minha aliada nesta casa só de homens!)
Mas tudo isto para dizer (agora que já vos macei o suficiente!), que 1º: o ‘sucintamente’ acabou por não o ser, pelo que peço desculpa (!). Mas mais importante: olhando agora para trás, todas as mudanças destes últimos meses trouxeram-me “CALO”, tornando-me numa pessoa mais forte e com menos medo do que a vida nos tem reservada.
Não é que me considere alguma heroina, claro que não; tenho perfeita noção de que há muita gente a passar por bem pior. Mas comprovei que tudo passa, tudo melhora, e que o ser-humano, que por vezes pode ser tão imperfeito nalgumas coisas, é tão perfeito em garantir a sua sobrevivência, descobrindo forças que não sabia que tinha quando as situações assim o exigem.
E é com esse espírito que eu quero começar o ano novo: com a aceitação de “mudança” – boa ou má - como sendo parte da nossa vida; um bem essencial ao nosso crescimento, que nos fortalece a cada passo que damos na montanha russa que é a vida, sem saber o que nos espera na próxima curva – se uma subida, se uma queda livre -, mas sempre com a esperança, aliás - CERTEZA, que depois de cada descida há uma subida, e aceitar que uma não pode existir sem a outra. Portanto venha mudança! Estamos preparados!
quinta-feira, 11 de novembro de 2010
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