Continuo por causa dela. Semanalmente liberto-me de tudo e pairo ligeiro naquele grupo fascinante de talentos e histórias. É um grupo variado de mulheres inteligentes e argutas capazes de recriar mundos pelas suas palavras. Integradas e presas a realidades estabelecidas, mas também ousadas, criativas e bem-dispostas. A minha presença é discreta e leve. Manifesto-me por uma ruborescência inesperada numa face, por um movimento inesperado do ar. Calo-me e observo. Observo-a a ela em especial. Ela cuja presença e som da voz me fazem esquecer os milénios de tédio. A sua presença é tão intensa e perturbadora para mim que duas horas por semana são dose escassa mas recomendada. Um maior contacto poderá levar-me a praticar actos desesperados de sedução e aproximação; o que não quero, se bem que o deseje. Por vezes não me contenho e desprendo-me do meu ponto de observação, em que só a ela vejo, e passo-lhe suavemente a mão pelos cabelos, tão leve que só uma momentânea pequena mudança de temperatura, que se parece com um sopro, me trai. Por vezes afloro-lhe os lábios, com tanta ligeireza, que só horas mais tarde ela se apercebe da possibilidade desse beijo. Em dias de maior perturbação desenho-lhe os seios e as formas do corpo mas o calor intenso da sua aura só a mim queima. Nesses momentos de arrebatamento em que o silêncio é o meu melhor aliado apodero-me do único homem presente – sim, há um homem no grupo, personagem discreta e descontraída – e obrigo-o a escrever febrilmente mensagens absurdas em códigos esquecidos do templo de Zoroastro da velha Babilónia, sem relação com o que se está a passar no grupo e que vota ao fracasso a minha tentativa de comunicar com ela. Calmo de novo, olho para longe, para um futuro sonhado, e no silêncio sinto o prazer da paixão não consumida.
Fernão Pessoa, Abril 9002