“Mais uma volta ao aquário, é o meu exercício matinal, não quero ficar gordo como uma baleia. A água está mais fria hoje, será que o estúpido do homem não regulou o termóstato? Quantas voltas me faltam ainda? Perdi a conta. Olha quem vem aí. A menina Rosa e o Sr. João. Está com um ar comprometido… deixa-me olhar melhor. Tenho que disfarçar, senão eles podem notar, não quero ser testemunha de nada. Já estou um pouco tonto de dar tantas voltas, quando a Vermelhinha estava aqui era mais divertido, subíamos, descíamos, dávamos beijinhos na boca e brincávamos às escondidas. Agora é uma chatice. É triste a solidão. Espera lá, o malandrete do Sr. João está a dizer um segredo à Rosinha. Olha ela toda corada, quase parece a Vermelhinha. Ficou com um ar todo dengoso. O Sr. João, todo sério, todo empertigado e ali todo derretido, quem diria, já tem idade para ter juízo. Coitado, aguentar a D. Joaquina não é fácil, e aquele sinal horroroso com um pelo espetado, e sempre a resmungar. A menina Rosa é uma gracinha, a pele muito branca, os lábios parecem corais, e depois ri, ri muito. Gosto dela.
Mas espera a porta abriu-se e aparece a D. Joaquina…”
“Apanhei-te meu safado, ainda te mato” e agita a vassoura com raiva.
“Ai, ai, ai o estupor da mulher ainda me parte o aquário.”
Helena Barradas
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
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