Leu e releu as palavras desenhadas sobre a folha branca. Cada sílaba retirava-lhe sanidade. Nada mais haveria para memorizar. Tentou concentrar-se. Mas as letras brincaram consigo, alegres, saltitantes naquele espaço sem fim, sem sentido, sem saída. Era um espaço doloroso, esse espaço branco. As cartas, impossíveis instrumentos do bem e do mal. Sem controle. Escreviam-nas quem quer que quisesse, assim por um impulso insultar ou elogiar os destinatários. Recebiam-nas inocentes leitores, alvos de troça ou de raiva, e abriam-nas assim sem mais réstia de temor, curiosos -afinal quem teria perdido seu precioso tempo para esboçar somente para si estas palavras...
Cartas. Cartas de jogo, cartas de sorte, última cartada, cruel e final. Alfredo permaneceu atónito, papel na mão. Malvada. Matilde. Maldita. Maquiavélica. O coração estancou. Nem mais um pulsar.
Lowndes Faria
12 Janeiro 2009
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