segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Boticelli estava enganado

Leonor estranhara o telefonema de Sofia. Já não se viam há algum tempo e pelo tom de voz apercebeu-se que algo não estava bem. Andreia tinha saudades das amigas e ficara contente com o convite para o chá.
Sofia tinha bom gosto e o apartamento onde morava reflectia a sua personalidade. Uma sala espaçosa cheia de luz, sofás confortáveis de cores vivas, uma grande estante repleta de livros, várias mesas baixas com fotografias, revistas e vasos de orquídeas brancas.
Leonor e Andreia chegaram praticamente ao mesmo tempo, as duas curiosas com o que adivinhavam ser um notícia importante. Conheciam-se desde a faculdade e mantiveram desses anos, uma amizade sincera e profunda apesar das diferenças de personalidade.
Sofia, extrovertida, recebe-as como sempre com um beijo caloroso. “Ainda bem que vieram, preciso da vossa compreensão.” Leonor e Andreia entreolharam-se, alguma coisa de grave se passava para esse pedido tão inesperado; logo ela tão segura de si.
“Mas antes de vos contar, vamos tomar um chá.” O chá era para ela um ritual, tinha-os de todos os gostos e origens, e era rigorosa, quase maníaca, na maneira como o preparava.
Leonor olhava à sua volta e com alguma surpresa, verificou que tinham desaparecido as fotografias do Carlos. “Hum”, pensou, “aqui há coisa. Estava na cara, tão apaixonados, tão cheios de lamechices, tinha que acabar, como se fosse possível acreditar que durasse para sempre”.
Andreia sempre tímida, introvertida, esperava que a amiga dissesse alguma coisa. Havia uma certa tensão no ar.
“Meninas, vão talvez ficar admiradas, mas acabei tudo com o Carlos. Pelas vossas caras vejo que não esperavam”. As duas amigas estavam silenciosas. Leonor tinha um sentimento estranho, misto de vingança e desapontamento. Afinal não era só para ela que a vida era amarga e árida. Sempre sentira inveja da amiga. Era bonita, brilhante, multifacetada e pior amada com paixão.
Andreia estava chocada. Porquê, o que teria acontecido para que Sofia tomasse aquela decisão? Ela que se segurava ao casamento, com todas as forças, que procurava manter a harmonia, quantas vezes superficialmente, não percebia que um casal que se amava tanto e tão intensamente, tivesse chegado ao fim.
“Queridas, sei que é difícil perceber. Afinal eu e o Carlos éramos o casal romântico, a excepção, o exemplo. Mas já há algum tempo que sentíamos que havia uma espécie de teatro entre ambos. Cada um a desempenhar o seu papel o melhor que podia, mas a representar. Tivemos consciência disso e quisemos preservar, o passado, a nossa paixão, a sofreguidão um pelo outro, a obsessão. Não fazia mais sentido. Tínhamos ambos direito à verdade. O Carlos foi-se embora ontem.”
Andreia não sabia o que dizer. A sua vida nunca fora dominada por paixões. Séria, lúcida, procurava tirar o melhor partido do que tinha, sem esperar muito, sem falsas expectativas. Sempre tivera medo dos sentimentos arrebatadores, conhecia as suas fragilidades.
O olhar de Leonor reflectia um ligeiro cinismo, descontrolada começou a rir às gargalhadas…

Helena Barradas

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